EXCLUSIVO: DE VOLTA AOS PALCOS, COSMONET REVELA AUTISMO E COMENTA O PODER DA MÚSICA

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EXCLUSIVO: DE VOLTA AOS PALCOS, COSMONET REVELA AUTISMO E COMENTA O PODER DA MÚSICA


No mês da conscientização sobre o autismo, o DJ e produtor musical que já tocou em doze países comenta tabus e compartilha informações úteis para saber como lidar com a neurodiversidade.

Do homem mais rico do mundo, Elon Musk, a um dos maiores gênios das artes cênicas, Anthony Hopkins, até a mundialmente conhecida ativista ambiental sueca, Greta Thunberg, e o DJ produtor musical Cosmonet, todos tem em comum uma característica: o autismo.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 160 crianças em todo o mundo tem algum Transtorno do Espectro Autista (TEA). A condição afeta a maneira como as pessoas veem, ouvem, sentem e interagem com o mundo ao seu redor, em diferentes graus. O TEA pode dificultar o ato de conversar com outras pessoas ou interpretar sinais sociais e, muitas vezes, causa ansiedade. Várias pessoas do espectro têm dificuldade de filtrar o barulho de fundo em ambientes mais movimentados. Assim como na população em geral, algumas pessoas autistas são bastante sociáveis, enquanto outras são mais tímidas e retraídas. 

Os seres humanos são todos únicos e diferentes uns dos outros. É fácil identificar nossas diversidades de gênero e de etnia pois podemos vê-las. Já a diversidade do cérebro não podemos ver. O conceito de neurodiversidade aponta que a mente pode funcionar de diversas maneiras, e que essas diferenças são apenas variações naturais do cérebro humano. Em vários casos a pessoa com autismo tem uma alto desempenho em alguma área específica, como por exemplo formas de expressar a arte, no detalhismo da sua memória fotográfica ou na hipersensibilidade sonora, como com o mundialmente conhecido artista Cosmonet, brasileiro da cidade de São Paulo.

Cosmonet é velho conhecido do público brasileiro, japonês, alemão e muitos outros. Sua arte se revela através da música, onde os beats eletrônicos surgem apoiados na inteligência sonora desenvolvida pelo artista em função da sua condição autista.

DJ residente de uma das maiores festas do Brasil, a XXXperienceCosmonet é o único artista que tocou em todas as edições, há quinze anos ininterruptos. Em 2023 sua apresentação será ainda mais especial, pois marca o retorno do artista aos palcos após um hiato onde dedicou-se exclusivamente a outros projetos também relacionados a música.

O currículo do artista é amplo. Com estudos em neurociência e formação por uma das escolas de maior prestígio do mundo no curso de Audio Master, na SAE, em Oxford, no Reino Unido, Cosmonet tem incontáveis turnês mundo afora e entrou para a lista dos artistas mais vendidos do Japão em toda história. Único artista de psy trance a subir no palco do Tomorrowland Brasil em suas duas únicas edições, Cosmonet foi convidado pelo próprio Raja Ram – ícone do trance –  para tocar em sua festa de aniversário em Tel Aviv, Israel. Amigo pessoal e parceiro musical da lenda viva Skazi, assim como de Paranormal Attack e Neelix. São vários os artistas que buscaram em Cosmonet uma referência e também uma parceria. O artista é nome frequente dos lançamentos da gravadora alemã SpinTwist Records e imagine: se com dificuldades Cosmonet atingiu tantas conquistas, outras pessoas com o espectro também podem.

Uma curiosidade sobre o artista é que ele é neto do norte-americano de origem croata, Andrija Puharich, famoso pesquisador, médico e parapsicológico, inventor médico, médico e autor de diversos livros. Nos anos de 1950 e 60 o cientista se debruçou sobre os estudos da mediunidade e também de propriedades da energia e do magnetismo. Fatos estes que, claro, influenciaram diretamente o artista.

Para saber mais sobre tudo isso, a apresentação histórica que vem por aí na XXXperience 2023 e destrinchar a relação do artista com o autismo de forma a conscientizar as pessoas de como lidar melhor com a neurodiversidade da população, Nazen Carneiro bateu um papo com Leonardo Puharic, o nome por trás da persona musical Cosmonet. Confira esta entrevista publicada com exclusividade pela DJ Mag Brasil, mas antes separamos aqui algumas características da pessoa com TEA.

1. Cada pessoa autista é diferente, mas pode compartilhar desafios semelhantes.
2. Podem achar difícil escutar o que alguém está dizendo quando há outros sons.
3. Podem não entender certas insinuações e nuances que outras pessoas perceberiam (Sarcasmo e Metáforas)
4. Contextualizar pode ajudar bastante.
5. Dificuldade em saber quando falar com outras pessoas.
6. Autistas podem soar diferente quando falam.
7. Para autistas, socializar pode ser mais difícil do que parece.
8. Autistas podem não expressar emoções da maneira que os outros esperam.
9. Autistas podem repetir coisas.
10. Escrever pode ser uma maneira útil de se comunicar.

Vamos de música? Ouça History, um dos maiores sucessos de Cosmonet, fruto de parceria com o alemão Neelix.

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RTH: Muito obrigado por aceitar esta entrevista. Tenho certeza que muitas pessoas se sentem contempladas ao ver a sua atitude. Você se sentiu pressionado todos estes anos sem contar da sua condição especial?

Com certeza! Não que fosse um segredo, mas devido a falta de entendimento e compreensão de muitos, sempre fui mal interpretado e/ou mal tratado mesmo! Sem falar no superego das pessoas que muitas vezes ultrapassa os limites da compreensão humana e elas simplesmente tiram proveito de nossa ingenuidade. Sendo maldosas pra valer.

RTH: Na música, você acha que existe mais preconceito ou falta de conhecimento sobre o autismo ?

A falta de informação leva ao preconceito! Isso leva a um entendimento equivocado e muitas vezes errôneo sobre qualquer tema! Por isso é importante difundirmos as informações e repassarmos o conhecimento adquirido!

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RTH: DJ Mag Brasil: No que a condição autista mais te dificultou na produção musical?

Sem dúvidas o perfeccionismo e a dificuldade, a dificuldade de aceitar expor algo experimental. Acho que por isso tenho mais de 150 músicas que ninguém ouviu e provavelmente jamais ouvirão. (risos) Me sinto mais livre e confortável quando componho para o Festival De Artes de Itu e quando escrevo trilhas que não são assinadas como Cosmonet, Skipper e outras marcas das música eletrônica que criei ao longo dos anos

RTH: E em relação às apresentações ao vivo tem algum impacto especial?

Poderia fazer uma lista gigantesca aqui, mas com certeza as crises de ansiedade antes dos shows, a cobrança interna e a dificuldade de improvisar são as mais impactantes. Também tem a falta de empatia e a hipersensibilidade sensorial. Esse conjunto de situações, sempre bateram de frente com a imagem que todos tem, de que nós artistas, temos que ser carismáticos e interagir com o público da forma que o “protocolo” exige. Abraço? Eu só consigo deixar encostar em mim as pessoas mais próximas, é como eu funciono, sabe?.

RTH: O que você acha que uma pessoa com autismo mais precisa dos outros?

Respeito a diferença. Não só no nosso caso, mas em todas e condições e situações. Respeitar as diferenças é a chave para fazer do mundo, um lugar mais atraente para se viver

RTH: Você tem uma relação muito especial com o som e trabalha a questão da inteligência sonora. Como você destaca o impacto da sua condição nesta equação?

Sim, sou estudioso sobre o poder das frequências no geral e como elas desenham tudo ao nosso redor! A hipersensibilidade sensorial me permite entender e assimilar os sons de forma diferente do padrão. Isso somado a alguns certificados de Mecânica Quântica e Neurociências, junto ao de Audio Master pelo SAE (Oxford), me permitem entender a cimática de forma diferente e elevar o conceito de que tudo é energia. E se tudo é energia, e o som é causado pelo ar é ar em movimento. Logo somos parte de um universo sonoro, harmônico e obviamente musical. Isso é o que eu chamo de inteligência sonora.

RTH: Trabalhar mais em estúdio do que ao vivo te trouxe Paz de espírito?

Definitivamente! Como escrevo, componho e assino pra umas 5 marcas, gosto de ter a liberdade de variar entre os estilos e viajar entre os multiversos musicias. Apesar de que muitos me conhecem como Cosmonet, quando entendem a amplitude do meu trabalho, junto a minha condição mental, entendem o porque de eu preferir muito mais o confinamento do estúdio do que a exposição dos palcos mundo afora.

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RTH: Mas você tem muita energia no palco, comente essa relação por gentileza.

Eu amo me apresentar, isso está mais do que óbvio nos vídeos dos meus shows! Mas me sinto muito mais confortável sem a pressão que sofremos em nos expôr e os questionamentos que geramos internamente em função dos shows.

RTH: Você está longe dos palcos há um tempo… qual é a emoção de estar prestes a se apresentar em um dos maiores eventos do Brasil e tão especial para você?

Todos ficamos longe dos palcos por dois anos, durante a pandemia de Covid-19, a diferença é que eu evitei certas situações quando o setor de entretenimento voltou. A emoção é a mesma. É como jogar em casa! A pressão é muito maior, a cobrança interna sempre triplica e a entrega tem que ser explêndida. Como sempre foi e sempre será !

RTH: Você é o único residente oficial deste festival, comente a relação com a XXXperience por gentileza.

Temos uma relação muito intimista! Começei a me apresentar como Cosmonet em 2005 na Anzu Club e após dois anos fiz minha estreia no festival em Itu, no Maeda em 2007. Passamos a nos conhecer melhor e rolou uma aproximação bem interessante no âmbito pessoal também, pois a empresa realizadora também tinha uma agência de artistas e passei a fazer parte da mesma. Em 2008 fiz minha primeira apresentação em uma edição especial e me apresento em todas elas desde então! Acredito que pelo Brasil, tenha me apresentado em mais de 40 edições do festival e neste ano completo 15 anos de residência. Com muito amor, respeito e gratidão por todos os momentos que dividimos! Muitas emoções 

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No video abaixo alguns dos principais artistas do mundo comentaram os dez anos de carreira de Cosmonet, em 2015.

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RTH: Essa sinergia com a XXXperience realmente marca sua carreira né?

Sempre nos apoiamos, sempre andamos lado a lado! Levei o nome do festival para inúmeros países em que me apresentei, escrevi a trilha e desenvolvi o sound design de alguns dos vídeos, inclusive o da mudança de logomarca. Além de músicas autorias com o nome do Festival. Em 2008 a faixa Are you Funky, com a temática do festival foi a música de abertura do site da Ed. Especial, com mais de 3milhões de acessos e isso alavancou tanto a minha carreira, quanto o festival que tinha uma música tema 100% autoral, claro! No livro da história do festival, tem duas páginas com o meu nome, com o título – Residente de Honra. Então acredito que isso já diga muita coisa por sí só. Faço parte dos lineups desde 2007  

RTH: Deixe uma mensagem para as pessoas que têm a mesma condição que você e querem se dedicar a música.

Será difícil, assim como tudo na vida, mas a disciplina é o que traz a maestria. Portanto, siga focado(a) e supere os obstáculos que os resultados virão

RTH: Qual o seu maior sonho hoje?

Que as pessoas sejam mais abertas as diferenças e que o respeito pelo próximo fale mais alto do que os desejos pessoais!

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Na imagem, um clipping da capa do portal MSN Japão exibindo entrevista com Cosmonet.

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RTH: Para fechar, gostaria que você explicasse a importância da inteligência sonora na vida de uma pessoa que não trabalha diretamente com a música.

Quando falamos de som e música, raramente pensamos em física e na análise científica necessária para entender a propagação do som e suas nuances, nas propriedades do som e nos detalhes ligados ao processo que antecede a apreciação da arte musical

A ligação da música com a ciência – em outras palavras, a associação da estética musical à teoria dos números – remonta à Escola Pitagórica. O som é produzido ao criarmos algum tipo de mecanismo que altere a pressão do ar em nossa volta. Na verdade, para a produção do som, é mais importante a velocidade com que a pressão varia (o “gradiente da pressão”) do que o seu valor absoluto. Por essa razão é que um balão cheio de ar não faz praticamente nenhum barulho ao deixarmos o ar sair de dentro dele naturalmente. Por outro lado, se o balão estourar (e o ar sair todo de uma vez), existe uma variação enorme da pressão e um ruído alto é produzido. Podemos então dizer que o som é produzido ao colocarmos uma quantidade (massa) de ar em movimento. É a variação da pressão sobre a massa de ar que causa os diferentes sons, dentre eles os que são combinados para criar a música. A vibração de determinados materiais é transmitida às moléculas de ar sob a forma de ondas sonoras. 

Percebemos o som porque as ondas no ar, causadas por essa variação de pressão, chegam aos nossos ouvidos e fazem o tímpano vibrar. As vibrações são transformadas em impulsos nervosos, levadas até o cérebro e lá codificadas. Uma nota musical é um som que a freqüência de vibração encontra-se dentro do intervalo perceptível pelo ouvido humano e a música é a combinação, das mais diversas formas, de uma seqüência de frequências e/ou notas em diferentes intervalos. 

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Flyer mostra Eskimo e Cosmonet em destaque do Shut Up And Dance, em Nagoya, 2009 | Acervo Cosmonet

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Por isso, uma mesma nota emitida por diferentes fontes, ou instrumentos musicais, podem ter a mesma freqüência e ainda assim soar de maneira diferente para quem ouve. Atualmente o conhecimento dos princípios da acústica e a teoria da propagação das ondas é bastante bem conhecida e pode-se descrever com precisão todas as características associadas aos fenômenos acústicos.

As notas musicais, são nomes dados a um conjunto de frequências e que a percepção de cordas mais curtas emitiam sons mais agudos e cordas mais longas, sons mais graves. A partir daí foi desenvolvida toda uma teoria que relacionava comprimentos de cordas, escalas, intervalos, notas, números inteiros e frações. A associação de uma fração a um dado intervalo musical mostrou-se um dos princípios mais criativos e imaginativos da acústica. E em cima dele montou-se praticamente toda a teoria da música ocidental. 

A percepção do som a partir das suas propriedades físicas, é o que nos permite ouvir o som sem, necessariamente, estar na frente da fonte sonora. Como toda onda, o som sofre reflexão, é absorvido pelo meio em que se propaga, atenuado pelo atrito com as moléculas do meio e transmitido de um meio a outro

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